quarta-feira, 31 de agosto de 2011

[NOVEL] Volume I - Cap. 1 - O rato encharcado (parte 3)

No. 6 - Atsuko Asano






Capítulo I - O rato encharcado (parte 1)


O rato estava em um túnel. Na escuridão, ele respirava silenciosamente. O ar cheirava levemente a terra úmida. Ele continuou seu caminho cuidadosamente. O túnel era pequeno. Era apenas grande o bastante para um rato se espremer por ele, e era escuro. Não havia luz a ser vista, mas isso acalmou sua alma. Ele gostava de lugares escuros e pequenos. Nesses espaços, nenhuma criatura grande poderia vir e lhe capturar. Alívio e tranquilidade momentâneos. Havia uma dor chata na ferida em seu ombro, mas esta não era o bastante pra lhe preocupar. O problema, na verdade, era a quantidade de sangue que havia perdido. A ferida não era profunda. Tinha apenas atingido seu ombro de raspão. A essa hora, o sangue deveria ter começado a coagular e fechar o machucado. Mas a ferida ainda estava... Ele sentiu a sensação morna e pegajosa. Ainda estava sangrando.


- Anticoagulante. Eles devem ter coberto a bala com isso.

O rato mordeu seu lábio. Ele queria algo para parar seu sangramento. Trombina, ou sal de alumínio. Não, nem tanto quanto isto. Ao menos, água limpa para lavar sua ferida.

Suas pernas fraquejaram. Uma tontura lhe atingiu.

- Nada bom.

Iria desmaiar por falta de sangue, talvez. Se fosse isso, seria ruim. Logo não seria mais capaz de se mover.

- Mas talvez eu não me importasse.

Ouviu uma voz dentro de si.

Talvez não seria tão ruim se deitar, incapaz de se mover, envolto na escuridão úmida. Ele adormeceria, um longo sono - e uma morte pacífica. Não doeria, não muito. Talvez fosse um pouco frio.

Não, isso seria pegar muito leve. Sua pressão sanguínea despencaria, ele teria dificuldade para respirar, seus membros iriam paralisar... claro que não seria indolor.

- Eu quero dormir.

Ele estava cansado. Com frio. Ferido. Incapaz de se mover. Tinha que sofrer somente mais um pouco mais, ele disse a si mesmo. Fique parado, ao invés de lutar inutilmente. Talvez haja pessoas o perseguindo, mas nenhuma que iria resgatá-lo. Então, ele deveria apenas por um fim a sua vida. Enrole-se aqui, e apenas vá dormir. Apenas desista.

Seus pés continuaram em frente. Suas mãos corriam ao longo das paredes. O rato deu um sorriso forçado. A voz lhe dizia para desistir, mas seu corpo teimosamente ainda continuava. O quão problemático isso tudo era.

- Uma hora sobrando. Não, trinta minutos.

Trinta minutos era o tempo máximo para qualquer movimento livre que tivesse. Naquele tempo, ele tinha que parar seu sangramento, e garantir um lugar para descansar. Os requisitos mínimos para continuar vivendo.

Havia um movimento no ar. A escuridão à sua frente estava gradualmente ficando mais clara. Ele dava cada passo cuidadosamente. Ele saiu de seu escuro e apertado túnel para uma área ampla, cercada por paredes de concreto brancas. O rato sabia que isso era parte de um túnel de esgoto que tinha sido usado até dez e poucos anos atrás, no final do século XX. Ao contrário da área acima, as instalações subterrâneas da No. 6 não eram bem mantidas. Muito disso tinha sido deixado do mesmo estado que estavam no século passado. Esse túnel de esgoto era apenas outro desses, abandonado e esquecido. O rato não poderia pedir por um ambiente melhor. Ele fechou os olhos e visualizou o mapa da No. 6 que tinha tirado do computador. 

Havia uma boa chance desta ser a abandonada rota K0210. Se fosse, então ela deveria se estender até perto da área residencial de classe alta chamada Chronos. Claro, ela também poderia levar a um beco sem saída. Mas, se ele tinha escolhido viver, então seguir em frente era sua única opção. O rato em sua atual situação não tinha nem escolha nem tempo para hesitar. 

O ar se agitou. Não era a velha umidade de antes, mas ar fresco carregando muita umidade. Ele se lembrou de que estava chovendo forte acima. Essa passagem estava definitivamente conectada com o mundo superior.

O rato inalou, e sentiu o cheiro da chuva.

 * 

Sete de setembro de 2013 foi meu décimo segundo aniversário. Neste dia, um sistema de baixa pressão tropical, ou furacão, que tinha se desenvolvido uma semana antes fora da região sudoeste do Oceano Pacífico Norte, fez seu caminho ao norte, ganhando força, até atingir-nos diretamente na cidade No. 6.

Esse foi o melhor presente que eu já ganhei. Estava entusiasmado. Eram apenas pouco mais quatro horas da tarde, mas já estava começando a ficar escuro. As árvores no jardim curvavam-se no vento enquanto as folhas e pequenos galhos eram arrancados. Eu amava o som clamoroso que faziam. Era o completo oposto da atmosfera usual da vizinhança, que raramente envolvia qualquer barulho.

Minha mão preferia árvores pequenas à flores, e através de sua plantação entusiástica de amendoeiras, camélias e carvalho silvestre por todo lugar, nosso jardim tinha crescido em um pequeno bosque. Mas graças a isso, o barulho de hoje era como nenhum outro. Cada árvore fazia um som diferente.  Folhas rasgadas e ramos batiam contra a janela, grudando-se nela, e então eram afastadas de novo. De novo e de novo, rajadas de vento rebentavam contra a janela.

Eu ansiava por abri-la. Mesmo ventos fortes como esse não eram o bastante para quebrar o vidro resistente, e, neste quarto com atmosfera controlada, umidade e temperatura permaneciam estáveis e inalteráveis. Era por isso que eu queria abrir a janela. Abri-la, e trazer o ar, o vento, a chuva, a mudança do habitual.

"Sion" a voz da minha mãe veio do interfone. "Eu espero que você não esteja pensando em abrir a janela."

"Eu não estou."

"Bom... você ouviu? As terras baixas do Bloco Oeste estão inundadas. Terrível, não é?”

Ela não soava como se sentisse nem um pouco mal.

Fora da No. 6, a terra era dividida em quatro blocos - Oeste, Leste, Norte e Sul. A maior parte dos blocos Leste e Sul eram fazendas ou pastagens. Elas providenciam 60% de toda a produção de plantas para alimentação e 50% dos produtos de origem animal. No Norte, havia uma expansão da floresta estacional e montanhas, sob conservação completa do Comitê de Administração Central.

Sem a permissão do Comitê, ninguém pode entrar na área. Não que alguém gostaria de vagar em um lugar selvagem, quase completamente sem manutenção.

No centro da cidade há uma enorme Floresta-parque que ocupa mais de 60% da área total da cidade. Nela, onde alguém pode experimentar as mudanças sazonais e interagir com centenas de espécies de pequenos animas e insetos que a habitam.

A maior parte dos cidadãos estava satisfeitos com a vida selvagem dentro do parque. Eu não gostava muito. Eu não gostava especialmente do prédio da Prefeitura que se elevava no centro da cidade. Ela tinha cinco andares subterrâneos e dez acima, e tinha a forma de uma cúpula. A No. 6 não tinha edifícios, então talvez "ameaçadora" fosse um pouco exagerado. De qualquer maneira, ela exalava um sentimento sinistro. Algumas pessoas a chamavam de "A Lua"(3) por causa de sua forma redonda e branca, mas eu achava que ela me lembrava mais de uma bolha redonda na pele. Uma bolha que tinha irrompido no centro da cidade. Como se a cercassem, o Hospital da Cidade e a construção do Escritório de Segurança ficavam próximos, e eram conectados com passarelas parecidas com tubos de gás. E cercando tudo havia a floresta verde. A Floresta-parque, um lugar de paz e tranquilidade para os bons cidadãos. Todas as plantas e animas que habitavam o lugar eram minuciosamente monitorados, e todas as flores, frutas e pequenas criaturas de cada área em cada estação eram completamente gravadas.

Os cidadãos poderiam encontrar a melhor hora e lugar para assistir ou olhar eles através do Sistema de Serviço da Cidade. Natureza perfeita, obediente. Mas mesmo ela poderia ser furiosa em dias como este. Era, afinal, um furacão.

Um ramo com folhas verdes ainda grudadas bateu contra a janela. Uma rajada de vento o seguiu, e um rugido ressoou por algum tempo. Ao menos, eu achei que eu pudesse ouvi-lo ressoar. O vidro à prova de som cortava qualquer barulho vindo de fora. Eu queria a janela fora do meu caminho. Eu queria ouvir, sentir, o vento furioso. Quase sem pensar abri a janela. O vento e a chuva vieram soprando-se para dentro. O vento rugia como se viesse das profundezas da terra. Era um rugido que eu não tinha ouvido por longo tempo. Eu também, ergui minhas próprias mãos e deixei um grito sair. Ele iria se dispersar no vento da tempestade, e não alcançaria os ouvidos de ninguém. Ainda assim eu gritava, sem nenhum motivo. Gotas de chuva caiam em minha garganta. Eu sabia que estava sendo infantil, mas eu não conseguia parar. Começou a chover mais forte. Como seria excitante tirar todas minhas roupas e correr na tempestade. Tentei me imaginar nu, correndo através da chuva torrencial. Eu definitivamente seria declarado insano. Mas era uma tentação irresistível. Abri minha boca de novo, e engoli as gotas. Eu queria reprimir esse impulso estranho. Eu estava assustado com o que se escondia dentro de mim. Às vezes, eu me achava oprimido por uma tumultuada onda de emoções selvagens.

Quebre.

Destrua.

Destruir o quê?

Tudo.

Tudo?

Houve um som mecânico de aviso. Estava me informando que as condições atmosféricas do quarto estavam se deteriorando. Eventualmente, a janela iria fechar e trancar automaticamente. O controle de temperatura e desumidificação iria ser ativado, e todas as coisas molhadas no quarto, me incluindo, seriam secas instantaneamente. Sequei meu rosto molhado na cortina e caminhei até a porta para desligar o sistema de controle do ar.

E se, naquele momento, eu tivesse obedecido ao aviso sonoro? Às vezes eu ainda penso sobre isso. Se eu tivesse fechado a janela, e escolhido ficar no conforto de meu quarto adequadamente seco, minha vida poderia ter sido completamente diferente. Não era arrependimento, nem nada disso. Era só um pensamento peculiar. Aquilo que mudou todo meu mundo, tão meticulosamente controlado até agora, aconteceu daquela pequena coincidência? Que, em 7 de setembro de 2013, num dia chuvoso, eu por acaso abri a janela. Era um pensamento bem peculiar.

E apesar de não acreditar em nenhum deus em particular, há momentos em que eu sinto certa convicção pelo termo "Mão divina".

Desliguei o controle. O som de alerta parou. Um silêncio súbito caiu sobre o quarto.

Heh.

Ouvi uma risada fraca atrás de mim. Instintivamente eu me virei, e dei um pequeno grito. Havia um garoto parado lá, completamente encharcado. Levou um tempo para eu perceber que era um garoto. Ele tinha cabelos até o ombro que quase escondiam seu rosto pequeno. Seu pescoço e braços que saíam de sua camiseta de manga curta eram finos. Eu não poderia dizer se era um garoto ou uma garota, se ele era bem novo ou mais velho do que parecia. Meus olhos e minha consciência estavam muito focados em seu ombro esquerdo, que estava manchado de vermelho, pra pensar em qualquer outra coisa.

Era a cor do sangue. Eu nunca tinha visto ninguém sangrar tão abundantemente como ele estava. Instintivamente eu entendi minha mão em direção a ele. A figura do intruso desapareceu da ponta de meus dedos. Ao mesmo tempo, senti um impacto, e fui prensado contra a parede por uma grande força. Senti uma sensação gelada em meu pescoço. Eram dedos, cinco deles, fechando-se contra minha garganta.

————  ————

  1. Apesar da pronúncia no anime ser "Shion", e de o kanji do nome do personagem [紫苑] ser lido desta maneira, segundo o site oficial do anime o correto é "Sion".
  2. A tradutora da novel para o inglês utiliza desde o inicio da narrativa o nome Nezumi. Como todos sabem, "nezumi" significa "rato" em japonês, e na narrativa original fica ambíguo se a autora se refere ao animal ou a pessoa de nome Nezumi. Mantive na tradução "rato" porque, na novel, o personagem ainda não foi apresentado ao leitor.
  3. No original, "Moondrop". Não há uma tradução exata para o português, mas segundo o site hiwaay: "Uma substância que, nos tempos romanos e depois, era supostamente derramada pela lua nas ervas quando um encantamento era feito."
Desculpem a todos pela demora em começar a postar, mas ai está :) 










11 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Ohhh muito obrigada pela tradução Ma! *--*

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  3. Meus parabéns irei acompanhar a tradução de vocês! Beijos

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  4. OMG, MUITO BOM, PARABÉNS! que lindo. esperando novos capítulos *o*

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  5. Obrigada pela tradução!

    Ansiosa pelos próximos capítulos! *-*

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  6. Por isso q eu amo novels! Depois de ter visto o anime, parece q estou lendo uma fic muito bem feita! Obrigada pela tradução ♥

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  7. NYYA! Obrigado, muito mesmo!
    A novel é muito linda e é difícil quem queria traduzir. :/
    Valeu pela tradução. o/

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  8. vc vai continuar.?? por favor, please, onegaaaaiii.... nao desista de traduzir.. T.T nós, fans, somos muuito agradecidos que exista alguém com talento, e que se enteressa em repassar o conteudo para nos fans.. nao sei nem dizer quanto estou agradecida pelo seu esforço.. *____*
    No.6 é meu Mangá, Anime, e Light Novel favoritos! entao posso dizer com sinceridade.. Doumo Arigatou Gozaimassu.. T.T sou sua fa!

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    1. Sim, pretendo voltar a traduzir. :)
      Por causa da faculdade nem ler mais pude, mas agora que estou com a agenda mais tranquila, quero voltar sim! Obrigada pelo comentário, ele com certeza me animou em voltar com este projeto. ^-^

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