segunda-feira, 26 de setembro de 2011

[NOVEL] Volume I - Cap. 1 - O rato encharcado (parte 2)

Olá!

Primeiramente, gostaria de pedir desculpa a todos que estão esperando a tradução, mas infelizmente vida de estudante universitário não é nada fácil. Sem enrolar muito mais, só gostaria de agradecer a todos que estão lendo e comentando! :D




Capítulo I - O rato encharcado (parte 2)

"Não se mova", ele disse.

Ele era mais baixo que eu. Sendo sufocado por baixo, esforcei-me para dar uma olhada em seus olhos. Eram de um escuro, mas, ao mesmo tempo claro, cinza. Eu nunca tinha visto uma cor como aquela antes. Seus dedos estavam cerrados. Ele não parecia nem um pouco forte, mas eu estava completamente incapaz de me mover. Não era algo que uma pessoa normal poderia fazer.



"Entendo", consegui suspirar. "Você está acostumado a fazer isso."


O par de olhos cinzentos não piscava. Seu olhar, ainda fixo, era calmo como uma superfície suave do oceano, e eu podia ler que não havia ameaça, medo ou intenção de matar vinda dele. Eram olhos bem calmos. Pude sentir meu próprio pânico desaparecendo. 

"Eu vou cuidar da sua ferida", eu disse, lambendo meus lábios. "Você está machucado, não está? Eu vou cuidar disso."

Eu podia me ver refletido nos olhos do intruso. Por um momento, senti-me como se pudesse ser sugado por eles. Desviei meu olhar e olhei para baixo, e repeti o que havia dito.

"Eu vou cuidar da ferida. Nós temos que parar o sangramento. Cuidar. Você entende o que estou falando, certo?"

O aperto em meu pescoço afrouxou um pouco.

"Sion."

A voz de minha mãe veio pelo interfone. "Você está com a janela aberta, não está?"

Respirei fundo. Eu estava bem. ‘Está tudo bem’, reafirmei a mim mesmo. Eu poderia falar com uma voz normal.

"A janela?... Ah, sim, está aberta."

"Você vai pegar um resfriado se não fechá-la."

"Eu sei."

Pude ouvir minha mãe rindo do outro lado.

"Você está fazendo doze anos hoje e ainda age como um garotinho."

"Ok, eu entendi... ah, mãe?"

"O quê?"

"Eu tenho um relatório para escrever. Pode me deixar sozinho por um tempo?"

"Um relatório? Seu Curso Especial não acabou de começar?"

"Huh? Ha... Bem, eu tenho vários trabalhos a fazer."

"Entendo... Não se esforce muito. E desça na hora da janta."

Os dedos gelados deixaram minha garganta. Meu corpo estava livre. Estendi minha mão para ligar novamente o Sistema de Controle de Ar, e tive certeza de deixar o Sistema de Segurança desligado. Se eu não o deixasse, ele iria detectar o intruso como uma presença estranha, e dispararia um alarme irritante. Se a pessoa fosse reconhecida como uma residente legal da No. 6 isso não aconteceria, mas eu não imaginava que esse intruso encharcado pudesse ter uma cidadania. 

A janela fechou, e o ar quente começou a circular no quarto. O intruso de olhos cinza meio que colapsou e se ajoelhou, e deitou contra a cama. Ele soltou um suspiro longo e profundo. Estava consideravelmente enfraquecido. Peguei o kit de emergência. Primeiro tirei seu pulso, depois rasguei sua camisa e comecei a limpar a ferida.

"Isso..."

Eu não conseguia tirar os olhos. Eu não estava acostumado com esse tipo de ferimento. Uma ferida profunda estava cavada na carne de seu ombro.

"Um ferimento de bala?"

"Sim." Foi uma resposta casual. "Não acertou. Qual é seu termo pra isso? Um tiro de raspão?"

"Eu não sou especialista. Ainda sou um estudante."

"Do Curso Especial?"

"Começando mês que vem."

"Uau. QI alto, hum?"

Havia um tom de sarcasmo em sua voz. Levantei meu olhar de sua ferida e o encarei.

"Você está tirando sarro de mim?"

"Tirando sarro? Enquanto estou sendo tratado por você? Nunca. Então, qual é sua especialização?

Eu lhe disse que era especializado em ecologia. Eu tinha acabado de ser aceito no Curso Especial. Ecologia. Isso tinha o mínimo a ver com como tratar uma ferida de bala. Minha primeira experiência. Vamos ver, o que eu tenho que fazer primeiro? Desinfetar, fazer o curativo... ah sim, eu tinha que parar o sangramento.

"O que você tá fazendo?"

Ele olhou quando tirei uma seringa do kit de primeiro socorros, e engoliu em seco.

"Anestesia local. Certo, aqui vai."

"Espera, espera um pouco. Você vai me anestesiar, e depois o quê?"

"Dar pontos."

Supostamente eu disse isso com um sorriso que parecia que eu não poderia estar me divertindo mais com isso. Foi algo que eu descobri bem mais tarde.

"Dar pontos! Você não poderia ser mais primitivo que isso?"

"Isso não é um hospital. Eu não tenho instalações de última geração, e, além disso, eu acho que um ferimento a bala é bem primitivo por si só."

A taxa de crimes na cidade era muito próxima à zero. A cidade era segura, e não havia necessidade de um cidadão comum carregar uma arma. Se o fizessem, seria apenas para caçar. Duas vezes por ano, as regras eram anuladas para a sessão de caça. Com armas antigas penduradas sobre seus ombros, amadores iriam se aventurar nas montanhas do norte. Minha mãe não gostava deles. Ela dizia que não entendia como pessoas poderiam matar animais por prazer, e ela não era a única. Em pesquisas periódicas, 70% dos cidadãos expressavam desconforto com a caça como uma forma de esporte. Matar pobres animais inocentes? Que violento, que cruel...

Mas a figura sangrando a minha frente não era uma raposa ou um veado. Era um humano.

"Eu não posso acreditar nisso", murmurei pra mim mesmo.

"Acreditar no quê?"

"Que há pessoas que atiram em outras pessoas... a não ser... não me diga que alguém do Clube de Caça atirou em você por engano?"

Seus lábios se curvaram. Ele estava sorrindo.

"Clube de Caça, hum. Bem, acho que você pode chamar eles assim. Mas eles não atiraram por engano."

"Eles sabiam que estavam atirando em um humano? Isso é contra a lei!"

"É? No lugar de uma raposa, eles passaram a caçar um humano. Uma caça humana. Eu não acho que é contra a lei."

"O que você quer dizer?"

"Que há caçadores, e a caça."

"Eu não entendi o que você está falando."

"Eu imaginei que você não entenderia. Você não precisa entender. Então, você vai mesmo me dar uma anestesia? Você não tem um spray anestésico ou alguma outra coisa?"

"Eu sempre quis tentar dar uma injeção."

Desinfetei a ferida, e apliquei a anestesia com três injeções ao redor da área machucada. Minhas mãos tremiam um pouco de nervosismo, mas de alguma maneira eu o fiz sem problemas.

"Deve começar a adormecer em breve, e então?"

"Você vai costurar."

"Sim."

"Você tem alguma experiência?"

"Claro que não! Eu não vou fazer medicina. Mas eu tenho conhecimentos básicos de como os vasos sanguíneos funcionam. Eu vi isso em um vídeo."

"Conhecimentos básicos, hein..."

Ele suspirou fundo, e me olhou diretamente. Seus lábios estavam finos e sem sangue, seu rosto afundado e sua pele estava pálida e seca. Ele tinha o rosto de alguém que não tinha vivido uma vida decente. Ele realmente se parecia com uma presa animal que tinha sido implacável e exaustivamente caçada, sem ter pra onde mais fugir. Mas seus olhos eram diferentes. Eles não mostravam emoção, mas eu podia sentir uma força feroz emanando deles. Era vitalidade? Eu imaginava. Eu nunca tinha conhecido ninguém em minha vida com olhos tão memoráveis como aqueles. E aqueles olhos me encaravam sem piscar.

"Você é estranho."

"Por que está dizendo isso?"

"Você nem ao menos perguntou meu nome."

"Ah, sim. Mas eu não me apresentei também."

"Sion¹, certo? Como a flor?"

"Sim. Minha mãe gosta de árvores e flores selvagens. E você?"

"Nezumi²."

"Hã?"

"Meu nome."

"Nezumi... não pode ser."

"Por que não?"

Aquela cor de olhos não era de nenhum rato. Era algo mais elegante. Como... o céu logo após o início da madrugada? Eles não se pareciam com isso? Eu corei, embaraçado ao me pegar recitando como um poeta grotesco. Propositalmente ergui minha voz.

"Certo, aqui vai."

Lembre-se dos passos básicos para suturar, eu me disse. Estabeleça dois ou três pontos fixos, e os use como suportes para continuar a sutura... deve ser conduzido com o máximo de cuidado e precisão... no caso de uma sutura contínua...

Meus dedos tremiam. Nezumi assistia meus movimentos em silêncio. Eu estava nervoso, mas um pouco animado também. Estava colocando o que costumava ser apenas conhecimento de livros em prática. Era excitante.

Sutura completa. Pressionei um pedaço de gaze limpa em cima da ferida. Uma gota de suor escorreu de minha testa.

"Você é tão inteligente."

A testa de Nezumi também estava pingando suor.

"Eu só sou bom com as minhas mãos."

"Não só com suas mãos. Seu cérebro. Você só tem doze anos, certo? E você está indo pro Curso Especial da maior instituição de educação. Você é uma super elite.”

Dessa vez não havia o tom de sarcasmo. Nem insinuação de admiração. Silenciosamente pus de lado a gaze suja e os instrumentos.

Dez anos atrás, eu fui certificado como top rank em inteligência durante meu segundo check up da cidade. A cidade garante a qualquer um que for certificado como top rank em inteligência ou habilidade física a melhor educação que possa imaginar. Até os dez anos eu tive aulas em um ambiente equipado com os melhores equipamentos juntamente com outros colegas como eu. Sob a orientação de uma lista de instrutores especializados, nós tivemos uma educação básica sólida e completa, e depois disso nos era providenciado instrutores particulares para que nos especializássemos no campo em que fossemos mais adequados. A partir do dia em que fui reconhecido como top rank, meu futuro tinha sido arranjado. Isso era certo. Nenhuma força pequena poderia fazê-lo ruir. Ao menos, era assim que as coisas deveriam ser.

"Parece uma cama confortável", Nezumi murmurou ainda encostado contra ela.

"Você pode usar ela. Mas se troque antes."

Joguei uma camiseta limpa, uma toalha e uma caixa de antibióticos no colo de Nezumi. E depois, por capricho, decidi fazer chocolate quente. Eu tinha aparelhos básicos o suficiente em meu quarto para fazer uma ou duas bebidas quentes.

"Não é exatamente fashion, é?" Nezumi torceu o nariz enquanto olhava a camiseta xadrez.

"Melhor que uma camiseta que está rasgada e coberta de sangue, se quer saber minha opinião."

Estendi-lhe uma xícara fumegante de chocolate quente. Pela primeira vez nessa noite, eu vi algo que pareceu como uma centelha de emoção em seus olhos cinza. Prazer. Nezumi bebeu um gole e murmurou suavemente 'bom'.

"Isso é bom. Melhor que seus pontos."

"Não é justo comparar assim. Eu acho que fui muito bem pra minha primeira vez."

"Você é sempre assim?"


"Hum?"

"Você sempre é tão aberto? Ou é normal pra todos vocês da elite não terem nenhum senso de perigo?" Nezumi continuou, segurando a xícara com as duas mãos.

"Vocês podem se dar bem sem problemas, sem sentir nenhum perigo ou medo de intrusos, hum?"

"Eu sinto perigo. E medo, também. Eu tenho medo de coisas perigosas e não quero nada com elas. Eu também não sou ingênuo para acreditar que alguém que entra pela janela do meu segundo andar é um cidadão respeitável."

"Então por quê?"

Ele estava certo. Por quê? Por que eu estava cuidando da ferida de um intruso, e até mesmo lhe dando chocolate quente? Eu não era um monstro de sangue frio. Mas eu também não era cheio de compaixão e boa vontade o bastante para estender a mão para qualquer um que estivesse machucado. Eu não era santo. Eu odiava lidar com aborrecimentos e desacordos. Mas eu tinha deixado o intruso entrar. Se as autoridades da cidade descobrissem, eu teria problemas. Eles talvez me vissem como alguém com falta de bom senso. Se isso acontecesse...

Meus olhos encontraram um par de cinzentos. Eu senti como se pudesse ver uma pitada de riso neles. Como se eles pudessem ver através de mim, tudo que eu estava pensando, e rindo de mim. Apertei meu estômago e olhei de volta para ele.

"Se você fosse alguém grande, um homem agressivo, eu teria ligado o alarme na hora. Mas você é pequeno, e parecia com uma garota, e estava a ponto de desmaiar. Então... então eu decidi cuidar de você. E..."

"E?"

E seus olhos tinham uma cor estranha que nunca vi antes. E eles me atraíram.

"E... eu queria na verdade ver como suturar um vaso era."

Nezumi encolheu os ombros, e tomou o resto de seu chocolate. Limpando a boca com as costas de sua mão, ele correu uma palma sobre os lençóis.

"Eu posso realmente dormir aqui?"

"Claro."

"Obrigado."

Aquelas foram as primeiras palavras de gratidão que eu ouviria desde quando ele entrou em meu quarto.


———  ————

Mais uma vez, agradeço a todos que estão lendo. Sobre a frequência das postagens, quantas vezes por semana gostariam de ver a tradução? Não posso prometer que vá conseguir acompanhar a vontade de vocês, mas gostaria de saber :) 

4 comentários:

  1. Fantástico. <3
    Sugiro que traduza apenas quando tiver tempo...

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  2. Primeiramente, gostaria de agradecer o seu esforço em trazer para nós os capítulos traduzidos! *-* Eu acho que essa é a maior benção que nós poderíamos ter (especialmente pra mim que sei tão pouco de inglês e tenho dificuldade em acompanhar as cenas... OTL). Gostaria de dizer que adorei a forma como você traduziu a primeira parte (a segunda irei ler hoje, mas tenho certeza que deve estar de igual qualidade ou melhor!). Quanto a frequência... Bom, eu acho que, como fãs, todos nós gostaríamos de ter as coisas rápido, mas eu entendo que você é universitária, então o melhor é enquadrar isso na sua agenda de forma que não lhe atrapalhe nem desestimule! xD Só de saber que você vai dar continuidade ao projeto já me deixa animada *-* Acho que essa é a melhor notícia de todas. Não importa o tempo que demore a tradução! <3

    Enfim, obrigada pelo seu esforço! Estarei acompanhando o blog com muito carinho!

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  3. Aii, é tão lindo! Completa certas dúvidas que tinhamos com o anime e mangá...
    Mas, só eu que achei o Sion um tanto determinado demais? Ele é bem ingênuo no anime, ou assim me parece...
    E o Nezumi não parece ter toda aquela determinação... Sei lá. XD
    Tá lindo assim mesmo, só inverteram um pouco as coisas - quem ia imaginar que o Sion se sente excitado assim, né? XDDDD

    Obrigado pela tradução, está realmente ótima.
    Ja ne. o/

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